Especialistas apontam que Reforma Tributária coloca o Brasil em um modelo já adotado por mais de 170 nações e exige nova lógica de gestão fiscal baseada em tecnologia, dados e compliance
Mesmo após a aprovação da Reforma Tributária e da regulamentação de parte das novas regras, a maioria dos empresários brasileiros ainda têm dúvidas sobre como o novo sistema vai operar. Questões como o fim do ICMS, o funcionamento do IBS e da CBS, mudanças no Simples Nacional, impactos nos preços e o cronograma de transição seguem entre os temas que mais geram insegurança no ambiente empresarial.
Mais do que uma alteração legislativa, especialistas apontam que a Reforma Tributária representa uma mudança estrutural na lógica de tributação do consumo no Brasil, aproximando o país de um modelo já utilizado por cerca de 172 nações que adotam sistemas baseados em IVA (Imposto sobre Valor Agregado). A partir disso, o debate deixa de ser apenas jurídico e passa a envolver tecnologia, governança de dados e capacidade operacional das empresas.
Para Victor Hugo Rocha, advogado tributarista e sócio da Rocha & Rocha Advogados, um dos principais erros de interpretação é acreditar que a reforma será percebida apenas quando o novo sistema estiver totalmente implementado.
“A reforma já começou. Embora a transição vá até 2033, as empresas precisam iniciar agora a adaptação de sistemas, contratos, operações e processos internos. O impacto não acontece apenas quando a alíquota muda, mas no momento em que a lógica operacional da tributação começa a ser alterada”, afirma.
A proposta da reforma é substituir o atual modelo fragmentado, considerado um dos mais complexos do mundo, por um sistema mais uniforme e integrado. Hoje, empresas convivem com diferentes legislações estaduais e municipais, excesso de obrigações acessórias, cumulatividade tributária e elevado custo de conformidade fiscal.
Na prática, tributos federais como PIS e Cofins serão substituídos pela CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), enquanto ICMS e ISS darão lugar ao IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), compartilhado entre estados e municípios. Além disso, a reforma cria o chamado Imposto Seletivo, voltado à tributação de produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, como cigarros, bebidas alcoólicas e itens com maior impacto ambiental.
“O chamado ‘imposto do pecado’ segue uma lógica já aplicada internacionalmente. A ideia é utilizar a tributação não apenas para arrecadação, mas também como instrumento regulatório de comportamento econômico e consumo”, explica Victor Hugo.
O novo modelo será baseado no chamado IVA Dual, sistema que mais gera dúvidas entre empresários e consumidores. Nele, CBS e IBS funcionarão de forma integrada, utilizando mecanismos de não cumulatividade e crédito financeiro. Isso significa que o tributo pago em uma etapa da cadeia gera crédito para a etapa seguinte, reduzindo distorções e incidências sobrepostas que hoje elevam o custo operacional das empresas.
Outra mudança relevante será a tributação no destino, fazendo com que o imposto seja recolhido no local de consumo do produto ou serviço, e não mais na origem da operação. A reforma também introduz mecanismos como o split payment, em que parte do tributo poderá ser automaticamente segregada no momento da transação, alterando a dinâmica financeira das empresas.
O cronograma de implementação será gradual. Em 2026, começa o período de testes, com IBS e CBS aparecendo nas notas fiscais em alíquotas reduzidas para validação operacional. Em 2027, a CBS entra efetivamente em vigor e PIS/Cofins serão extintos. Entre 2029 e 2032 ocorrerá a transição progressiva do ICMS e ISS para o IBS, até que, em 2033, o novo sistema esteja plenamente implementado.
Para especialistas, um dos principais desafios estará na adaptação operacional das empresas. A mudança exigirá atualização de ERPs, revisão de parametrizações fiscais, reorganização de fluxos internos e integração de dados tributários em tempo real. Além disso, contratos de fornecimento, modelos de precificação e estruturas comerciais precisarão ser revisados para acomodar a nova lógica tributária.
“O novo sistema exige dados consistentes, integração tecnológica e capacidade de acompanhamento contínuo. Empresas que não estruturarem isso antecipadamente tendem a enfrentar mais risco operacional e insegurança jurídica durante a transição”, afirma Victor Hugo.
Os impactos também devem atingir diretamente os consumidores. A reforma prevê maior transparência tributária nas operações, permitindo visualizar de forma mais clara a carga de impostos embutida nos produtos e serviços. Ao mesmo tempo, setores específicos podem sofrer alterações de preços, seja por aumento, redução ou neutralidade tributária, dependendo da estrutura de cada cadeia produtiva. A proposta também prevê mecanismos de cashback tributário voltados a famílias de baixa renda.
Embora ainda exista debate sobre setores potencialmente beneficiados ou mais pressionados, especialistas apontam que operações industriais, exportadoras e cadeias longas tendem a capturar ganhos de eficiência com a não cumulatividade. Em contrapartida, setores intensivos em mão de obra, como serviços, saúde privada, educação e tecnologia, seguem discutindo possíveis impactos sobre carga tributária e precificação.
Victor Hugo Rocha destaca que não existe uma resposta única sobre quem pagará mais ou menos impostos. “A reforma não produz o mesmo efeito para todas as empresas. O impacto depende da estrutura operacional, da cadeia de crédito, do regime tributário e da capacidade de adaptação. Por isso, análises genéricas tendem a gerar interpretações equivocadas”, explica.
Entre os principais mitos ainda presentes no mercado, especialistas destacam a ideia de que apenas grandes empresas serão afetadas, que negócios do Simples Nacional não precisarão se adaptar ou que os efeitos da reforma só serão sentidos em 2033. Na prática, o impacto será gradual e já começa a influenciar decisões operacionais, financeiras e contratuais desde agora.
A recomendação é que empresários iniciem imediatamente o mapeamento de impactos, revisão de enquadramento tributário, atualização de sistemas, capacitação de equipes e simulações financeiras.
“A pior estratégia neste momento é esperar. A transição é longa, mas as decisões começam agora. Quem iniciar o processo de adaptação antes terá mais previsibilidade, menos custo de ajuste e maior capacidade de aproveitar oportunidades dentro do novo modelo”, conclui o tributarista.
Sobre a Rocha & Rocha Advogados
Fundada em 2014, em Londrina (PR), a Rocha & Rocha Advogados atua nacionalmente na governança tributária de grandes contribuintes. O escritório nasceu da combinação de dois perfis complementares: Ciro Rocha, com visão técnica aprofundada sobre o funcionamento do Fisco; e Vanessa Rocha, com liderança voltada à estruturação, ao crescimento da operação e à incorporação de tecnologia como instrumento de governança. Conta com Victor Hugo Rocha como sócio, que contribui com uma atuação prática e estratégica na interpretação e aplicação das mudanças tributárias, conectando o jurídico à realidade operacional das empresas.
Com mais de 100 profissionais, mais de 400 clientes ativos e presença em Londrina, Brasília e São Paulo, a Rocha & Rocha integra expertise jurídica e contábil para atuar onde a complexidade tributária exige mais do que conformidade, exige método, previsibilidade e decisão estratégica.
Os impactos técnicos da convergência do sistema tributário brasileiro ao padrão mundial
PorPaulo Melo
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