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Escreva, Garota!: Projeto transforma escrita em espaço de acolhimento para mulheres vítimas de violência


Iniciativa criada pela escritora e produtora cultural brasiliense Lella Malta aposta na escrita como ferramenta de elaboração do trauma e com bolsas já distribuídas para mulheres em situação de vulnerabilidade em 2026

Em um país onde a violência contra mulheres segue como um dado estrutural, e não episódico, iniciativas culturais têm ocupado um espaço que muitas vezes o Estado não alcança: o da escuta, da elaboração e da reconstrução simbólica. Criado há quase seis anos,  completos em março de 2026, o projeto Escreva, Garota!, idealizado pela escritora e produtora cultural Lella Malta, surgiu com a proposta de incentivar a escrita de mulheres e, ao longo do tempo, tornou-se também um espaço de acolhimento para aquelas que viveram diferentes formas de violência.

“O Escreva, Garota! nasceu como um espaço de incentivo, visibilidade e criação, onde mulheres que viveram violência podem transformar silêncio em linguagem, dor em narrativa. Onde podem se sentir seguras”, afirma Malta. “A escrita não apaga nenhuma violência sofrida, mas pode devolver às mulheres o controle sobre a própria história.”

Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que a violência contra mulheres permanece em patamares elevados no país, com registros recorrentes de agressões físicas, psicológicas, sexuais e patrimoniais, muitas delas cometidas dentro de relações íntimas ou familiares. Especialistas apontam que, além do impacto imediato, essas violências produzem efeitos duradouros sobre a autonomia, a saúde mental e a possibilidade de participação social das vítimas.

É nesse contexto que o Escreva, Garota! se consolida como um coletivo literário que ultrapassa a formação técnica. “Quando uma mulher escreve sobre o que viveu, ela deixa de ser apenas personagem do trauma e passa a ser autora da própria narrativa”, diz Malta. “A escrita cria um território seguro onde experiências de violência podem ser reorganizadas, nomeadas e ressignificadas.”

Escrita como travessia

Ao longo dos anos, o projeto acompanhou mulheres que transformaram experiências de abuso, silenciamento e controle em livros, poemas e contos publicados. Os relatos, embora distintos, revelam padrões recorrentes de violência de gênero. 

A escritora Maria Luiza Wiederkehr, autora do livro “Santa ou Put*”, descreve a escrita como um processo contínuo de retomada de si. “Escrever um livro não foi colocar um ponto final nessa trajetória, mas mostrar a importância dos recomeços”, afirma. Segundo ela, a violência atravessou relações afetivas, profissionais e familiares, deixando marcas profundas. “Esses danos existem em cada mulher que precisou se submeter, que foi desvalorizada, que sofreu violência. As marcas são profundas e irreparáveis.”

Já Ellis Ribeiro, autora de "Textos Feitos de Café e Sombras", relata um histórico de abusos que se iniciou na infância e se estendeu por mais de duas décadas em um casamento marcado por violência psicológica, sexual e financeira. “Esse livro é um abraço, um grito de liberdade, amor próprio e ressignificação das minhas dores e da minha história”, diz. Hoje professora, ela afirma que a escrita foi fundamental para romper o ciclo de violência e reconstruir sua identidade.

A autora Cristina Parga também encontrou na literatura uma forma de elaborar experiências de abuso vividas fora do país. Em Portugal, envolveu-se em uma relação marcada por controle, violência sexual e psicológica. “A escrita me permitiu elaborar o trauma, ressignificar a dor e transformá-la em cura”, afirma. Parte dessa experiência deu origem ao conto “Playground Europa”, no livro “Furta-cores". “Hoje, falo do que vivi sem vergonha, com amor por aquela menina que resistiu.”

Para Margarida Montejano, o impacto do coletivo vai além da dimensão individual. “A escrita tem potencial libertador e, quando mulheres se juntam para pensar suas existências, elas se fortalecem e lutam em defesa da vida e da dignidade humana”, diz. Segundo ela, o espaço incentiva a denúncia da violência cotidiana e a preservação da esperança em um cenário marcado por desigualdades e misoginia.

Ações afirmativas e sessões de escrita terapêutica 

Além da formação literária, o projeto mantém, desde sua criação, uma programação de sessões de escrita terapêutica com psicólogas e política contínua de ações afirmativas. Todos os anos, o Escreva, Garota! oferece bolsas integrais para mulheres em situação de vulnerabilidade social, priorizando candidatas não brancas, mães solo, vítimas de violência doméstica e residentes em regiões historicamente menos atendidas por iniciativas culturais.

Em 2026, foram concedidas três bolsas integrais, totalizando R$4,5 mil. O objetivo, segundo a coordenação, é reduzir barreiras econômicas e ampliar a diversidade de vozes no mercado editorial. “Ampliar o acesso não é um gesto simbólico, é uma escolha política”, afirma Malta. “Essas mulheres já foram silenciadas demais. Criar condições concretas para que escrevam é também uma forma de enfrentamento à violência.”

Ao completar seis anos, em março, o Escreva, Garota! se firma como um espaço onde a literatura não aparece como solução mágica, mas como ferramenta possível de reorganização da experiência. Em um país onde a violência contra mulheres segue produzindo estatísticas alarmantes, o projeto aposta na palavra escrita como território de resistência, memória e recomeço.


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